{"id":243,"date":"2022-07-05T14:46:17","date_gmt":"2022-07-05T17:46:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paparazzinews.com.br\/?p=243"},"modified":"2022-07-05T14:46:18","modified_gmt":"2022-07-05T17:46:18","slug":"o-exercicio-da-paternidade-e-o-tabu-do-cuidado-masculino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paparazzinews.com.br\/?p=243","title":{"rendered":"<strong>O exerc\u00edcio da paternidade e o tabu do cuidado masculino<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p>Na \u00faltima semana, a internet ficou em polvorosa com a imagem de um rep\u00f3rter que, em uma apari\u00e7\u00e3o ao vivo, estava com seu filho. Conforme ele explicou, naquela manh\u00e3 a crian\u00e7a n\u00e3o pode ficar com a m\u00e3e porque ela tinha uma reuni\u00e3o de trabalho. Por algum outro motivo, tamb\u00e9m n\u00e3o pode ficar com outra pessoa, tampouco na creche. Depois de todas as alternativas anteriores, restou ao beb\u00ea um lugar bastante inesperado para estar: o colo do pai.<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a, com pouco mais de um ano, roubou a cena: tentou tirar o fone de ouvido do pai, se revirava no colo querendo aten\u00e7\u00e3o e desconcentrava o rep\u00f3rter que tentava trazer a not\u00edcia. O fato \u00e9 certamente incomum, mas qual ser\u00e1 o verdadeiro frisson que est\u00e1 por tr\u00e1s dele? Qual a raz\u00e3o para algo absolutamente normal \u2013 uma crian\u00e7a no colo de um pai \u2013 ter feito tanta gente compartilhar, curtir e achar sensacional a imagem?<\/p>\n\n\n\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples: o cuidado em m\u00e3os masculinas \u00e9 um tabu. Mesmo quando pai, a sociedade espera do homem o papel de auxiliar e ajudante, nunca de cuidador principal. Pelo senso comum, cabe \u00e0 m\u00e3e \u2013 e somente a ela \u2013 cuidar dos filhos. A imediata associa\u00e7\u00e3o do cuidado ao g\u00eanero (somente as mulheres sabem cuidar) \u00e9 marca social long\u00ednqua, talhada na carne de homens e mulheres por s\u00e9culos. N\u00e3o h\u00e1 como deixarmos de considerar que a cultura atual, ainda intensamente maternalista, termina por crer na exist\u00eancia de uma &#8220;domesticidade&#8221; somente feminina, ficando a cargo da mulher a fun\u00e7\u00e3o de cuidar.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, estamos e sempre estivemos diante de grande dessemelhan\u00e7a na responsabiliza\u00e7\u00e3o dos pais e m\u00e3es com rela\u00e7\u00e3o aos cuidados da prole, situa\u00e7\u00e3o que acarreta dificuldades \u00e0 mulher quanto \u00e0 falta de tempo para suas atividades cotidianas, comprometimento de sua atualiza\u00e7\u00e3o profissional, desaten\u00e7\u00e3o com o cuidado de sua sa\u00fade f\u00edsica e emocional, bem como impossibilidade de boa aloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. Quando se fala em dever de cuidado de filhos ainda se est\u00e1 diante de uma sobrecarga de trabalho feminino (inclusive de carga mental) e de atribui\u00e7\u00e3o muito maior \u00e0s m\u00e3es que aos pais quanto as tarefas suportadas no dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade p\u00f3s div\u00f3rcios n\u00e3o \u00e9 diferente. Recente pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) demonstra que cerca de 60% das crian\u00e7as permanecem, p\u00f3s div\u00f3rcio, sob guarda exclusivamente materna. E o que \u00e9 ainda mais grave: o conv\u00edvio di\u00e1rio no p\u00f3s ruptura \u2013 que pressup\u00f5e cuidado e responsabiliza\u00e7\u00e3o efetiva sobre as crian\u00e7as \u2013 \u00e9 absolutamente desequilibrado entre pais e m\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o fica ainda mais grave quando pensamos em crian\u00e7as menores. As crian\u00e7as em chamada tenra idade (e que exigem dose extra de cuidado e tempo de dedica\u00e7\u00e3o) t\u00eam, quase que como regra intranspon\u00edvel, o cuidado totalmente suportado pelas m\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p>O assunto virou pauta na IX Jornada de Direito Civil recentemente realizada pelo Conselho da Justi\u00e7a Federal. Durante os trabalhos, o enunciado n. 671, enfrentando o disposto no artigo 1.583, \u00a7 2\u00ba, do C\u00f3digo Civil, trouxe a ideia \u2013 aprovada em plen\u00e1ria \u2013 de que &#8220;a tenra idade da crian\u00e7a n\u00e3o impede a fixa\u00e7\u00e3o de conviv\u00eancia equilibrada com ambos os pais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, a discuss\u00e3o ganha import\u00e2ncia quando se pensa que, mesmo n\u00e3o havendo men\u00e7\u00e3o ou qualquer restri\u00e7\u00e3o \u00e0 idade da crian\u00e7a como limitador ao direito de conviv\u00eancia, em casos de&nbsp;beb\u00eas ou crian\u00e7as de tenra idade, o que se v\u00ea \u00e9 o estabelecimento de regimes restrit\u00edssimos, com a fixa\u00e7\u00e3o de poucas horas mensais para o conv\u00edvio. Infelizmente, o senso comum \u2013 e at\u00e9 mesmo alguns personagens do mundo jur\u00eddico \u2013 ainda compreende que o superior interesse da crian\u00e7a s\u00f3 estar\u00e1 salvaguardado se ela estiver o maior tempo poss\u00edvel ao lado da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>A aprova\u00e7\u00e3o do enunciado vem em boa hora. E isso porque \u00e9 chegado o momento de revermos os conceitos e nos livrarmos de ideias retr\u00f3gradas de que s\u00f3 a m\u00e3e sabe cuidar dos filhos, pensando nessa nova sistem\u00e1tica como algo totalmente vantajoso para as mulheres. Dividir responsabilidade sobre os filhos com os homens trar\u00e1 \u00e0 mulher condi\u00e7\u00f5es plenas de desenvolvimento pessoal, afetivo e profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que tivemos muito avan\u00e7o e que a condi\u00e7\u00e3o feminina teve importante mudan\u00e7a nos \u00faltimos 100 anos: o direito ao voto, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ao exerc\u00edcio de atividade profissional deram a mulher especial melhora de condi\u00e7\u00f5es de vida. Mas tamb\u00e9m \u00e9 fato que a maternidade nos moldes atuais, mesmo sem ter essa fun\u00e7\u00e3o, acaba ainda por causar aprisionamento a muitas mulheres, ref\u00e9ns de um machismo estrutural que as oprime, subjuga e invisibiliza.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 como negarmos, a carga feminina de trabalho dom\u00e9stico e familiar, atrelada \u00e0 ideia de cuidado somente por um g\u00eanero, ainda \u00e9 muito superior e esse estado de coisas s\u00f3 ser\u00e1 rompido quando naturalizarmos e cobrarmos o cuidado dos pais do mesmo modo que fazemos com as m\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p>O assunto \u00e9 ventilado para que compreendamos que o dever de cuidado de filhos n\u00e3o deve ser\u00a0atribu\u00eddo apenas \u00e0s mulheres. N\u00e3o h\u00e1 nada de espetacular e sensacional em um pai que cuide de seu filho, ainda que seja no seu hor\u00e1rio de trabalho. \u00c9 hora de compreendermos e naturalizarmos o fato de que \u00e9 dever de todos os envolvidos, independentemente de seus g\u00eaneros, estarem de corpo e alma no exerc\u00edcio da parentalidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*<strong>Silvia Felipe Marzag\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 presidente da Comiss\u00e3o de\u00a0Advocacia\u00a0de Fam\u00edlia e Sucess\u00f5es da\u00a0OAB SP.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima semana, a internet ficou em polvorosa com a imagem de um rep\u00f3rter que, em uma apari\u00e7\u00e3o ao vivo, estava com seu filho. Conforme ele explicou, naquela manh\u00e3 a crian\u00e7a n\u00e3o pode ficar com a m\u00e3e porque ela tinha uma reuni\u00e3o de trabalho. 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