Folha da Região
Uma rara coleção arqueológica foi devolvida no início do mês ao Museu Histórico da Colonização de Pereira Barreto, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Vasos, urnas funerárias, um machado em pedra polida com tradições típicas Tupiguarani são algumas das peças que formam o acervo que oferece preciosas informações sobre os ceramistas pré-históricos que habitavam a região.

As peças foram localizadas em sítios descobertos durante o resgate arqueológico da represa de Ilha Solteira, bacia do Rio Paraná, em 1971. As datações foram obtidas por termoluminescência, um método geocronológico de datação à base de luz, de fenômenos ou processos geológicos ocorridos há milhares de anos. Acredita-se que as peças remetam à ocupações que podem ter ocorrido há 2200 anos.

Desde então, a coleção esteve sob a custódia do Museu de Etnologia e Arqueologia da Universidade de São Paulo (MAE/UPS) que realizou a curadoria de cerca de duas mil peças, que foram numeradas, acondicionadas e ordenadas em planilhas, prontas para as pesquisas científicas.

De acordo com o diretor do Departamento de Cultura do município, Mário César Irikura, o acervo vai contribuir para a construção da própria identidade de Pereira Barreto. “Vai oferecer aprendizado e acesso à informação.

Esse acervo permite aos pesquisadores coletar informações dos costumes, tradições, hábitos, de registros de rotina por meio, por exemplo, dos desenhos e símbolos nas peças encontradas”, destaca.
Irikura ressalta que uma parte do acervo ficará à disposição dos visitantes e a maioria das peças ficará armazenada em sala de reserva técnica no próprio museu, para apoio de estudos e pesquisas.

O Museu da Colonização fica na rua Hajime Fujimoto, 1000, no Centro. O horário de funcionamento é das 13h às 17h, de terça a sábado.

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA
Segundo o Iphan, os fragmentos dos objetos que compõem o acervo podem revelar o modo de vida dos ancestrais. São materiais feitos em cerâmica e que ajudam a traçar o contexto histórico e cultural do povo Tupiguarani.

Eles foram encontrados nos vales dos rios Tietê e São José dos Dourados, até a confluência com o Rio Paraná, abrangendo o município de Pereira Barreto e parte dos municípios vizinhos.
Foram coletadas algumas lâminas de machado em pedra polida de diversos tamanhos, almofariz e mão de pilão, ferramentas típicas para o trabalho de cultivo e preparo de vegetais.

Polidores com sulco (abrasadores), utilizados para afiar os instrumentos de corte ou arredondar as varetas utilizadas nos fusos, também foram encontrados, além de um fuso em cerâmica indicando que, antes da era cristã, esses grupos cultivavam o algodão e dominavam técnicas de fiação.

O Iphan informou que o interesse arqueológico pela área teve início no início dos anos 1970 em decorrência da construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, instalada no Rio Paraná. Na ocasião, foram encontrados oito aldeamentos pré-históricos pela equipe de arqueólogos do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE/USP).

Todos os sítios arqueológicos ficavam localizados em colinas, próximos aos rios, a uma distância que os protegia das inundações. As datações foram realizadas em quatro dos sítios e assim foi possível afirmar sua ocupação pelos antigos indígenas entre 2200 a 1040 AP (Antes do Presente).

Uma grande quantidade de material cerâmico, assim como alguns artefatos líticos, produzidos em pedra, foram recuperados durante as pesquisas. Estudos feitos por arqueólogos a partir desses materiais, concluíram que se tratavam de ocupações por grupos pertencentes à Tradição cerâmica denominada Tupiguarani, povos horticultores.

Pouco tempo após a realização desses trabalhos, a usina de Ilha Solteira entrou em funcionamento e a maioria dos sítios arqueológicos foi inundada, impossibilitando o aprofundamento das pesquisas.

TÉCNICA DE PRODUÇÃO
Segundo os arqueólogos, a técnica de confecção era acordelada, ou seja, os vasos, urnas e tigelas eram confeccionados pelo acréscimo sucessivo de roletes de argila.

A decoração era variada, típica dessa tradição. Os vasilhames podiam ser totalmente lisos na cor natural da argila, pintados em vermelho ou decorados com desenhos geométricos requintados, geralmente traços vermelhos sobre uma base na cor branca ou creme denominada engobo.

Havia, ainda, a decoração plástica feita na argila antes de ir ao fogo. São os chamados corrugados, ungulados, escovados e incisos.